Em Correguinho Novo, lugarejo de Itinga, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, nasceu, em 3 de agosto de 1924, a artífice do barro conhecida como Mestra Izabel Mendes, que viveu morando o seu corpo e alma na palhoça, ao lado da Prefeitura Municipal de Almenara, na praça Dr. Hélio Rocha Guimarães e da Cunha e de Vilma Maria de Jesus, filha, criança criada e barra da sala da mãe. Já beijava o “jarro de ouro” com suas mãos de predestinada, fazendo suas pequenas peças como bonecas e colheres para brincar.
Adulta, abraçou a arte com força, pelo o prazer, a necessidade de sobreviver, principalmente a partir da vivência, em 1978, fazendo peças e utilidades domésticas, de fácil comercialização, como panelas, potes, pilões, jarros, copos, vasos, botijões e encantadoras bonecas. Estas garantiram a remuneração essencial e tornaram-se referência do artesanato do Vale do Jequitinhonha, sendo responsável pela consagração artística da Mestra Izabel, no Brasil e no mundo.
Trabalhava suas peças com criatividade singular, embalando-as e transportando-as na cabeça, do distrito de Santana do Araçuaí até a cidade do Ponto dos Volantes, na beira do rio-Ponta, onde as vendia, conquistando a fama de grande artista.
A artista do barro foi referência, fez escola, foi lição. Para o crítico de arte João Paulo (Jornal Estado de Minas, 8.11.201), “Izabel ensinou pelo exemplo”. Acrescentou, ainda, que “Dona Izabel põe em cena uma verdade que exige nova orientação dos estudos estéticos, do mercado de arte e da própria definição da identidade nacional: é uma das maiores artistas do século 20”.
Em 2007, o fotógrafo e incentivador Vilmar Oliveira, lançou o catálogo: “Desvendando o no – o caminho da cerâmica no Jequitinhonha”, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional Brasileiro. A publicação, valorizada por fotografias e belas imagens, mostra o artesanato como símbolo de expressão artística da região, e põe em lugar de destaque a obra da Mestra Dona Izabel Mendes.
Vilmar Oliveira, tem sua visão da arte, essa verdade constante da Mestra: “nem conversava com a gente”. “Ela morava no meio da casa, com a gente no dia, no sábado de manhã, ou do dia todo”.
“Em 2004, sua escultura “Mãe amamentando o filho”, escolhida dentre 90 obras de 10 países, foi vencedora da sétima edição do Prêmio Unesco de Artesanato para a América Latina e Caribe. Em 2005, foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura. Na edição de 2009, o Prêmio Culturas Populares, também do MINC, recebeu o seu nome”.
Em 23 de março de 2011, na abertura da homenagem “Mulheres, artistas e brasileiras”, no Palácio do Planalto, foi homenageada por sua expressividade artística, que, agora, é levada ao mundo por meio dos selos postais emitidos pelos Correios.
Nos versos de Gonzaga Medeiros, a seguir transcritos, fica evidenciada a missão da Mestra Izabel Mendes, que, em sua arte registrava a vida e a bravura esperança em forma de sonhos.
Ela (Mestra Izabel Mendes) em apostólica missão, Pele branca, de barro, fazê-las rimas solenes. Arrematar os ninhos, casar os miçangas encantos. Preparar o verbete da arte, matéria prima dos sonhos. Multiplicar o pão, alimentar as sementes. Que pobreza que rude! É riqueza de sonhos, esperança aos milhões.
Izabel Mendes da Cunha faleceu em 30 de outubro de 2014, com 90 anos de idade. Seus herdeiros dedicaram-se à continuidade de sua obra, fiéis ao legado da quem construiu com amor e ternura uma grande história de vida.





